Manhã — Orhan Veli

Minha mão como uma árvore de muitos galhos

Agarro o céu

E lanço um olhar para as nuvens

Feito um camelo que corre e corre, correndo

Para alcançar o horizonte longínquo

Antes da alvorada…

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Numa despedida — Jaime Gil de Biedma

Tardam as cartas e não bastam

para dizer o que se quer.

Depois passam os anos, e a vida

(demasiado confusa para explicar em cartas)

nos fará mais perdidos.

Uns nos outros, iguais às sombras

ao fundo de um corredor desvanecendo-nos

viveremos da luz involuntária

mas só por um instante, porque já a lembrança

será como uma mancheia de conchas recolhidas

tão bonita em si mesma que não devolve nunca

as palmeiras felizes e o mar tremulante.

Tudo ocorreu há minutos: dois amigos

vimos teu rosto terrivelmente sério

querendo sorrir.

Desapareceste.

E estamos os dois sós e em silêncio,

em meio a este dia de domingo,

belíssimo de maio, com matrimônios jovens

e crianças animadas que gritavam

ao decolar de teu avião.

Agora as montanhas parecem mais próximas.

E, pela primeira vez,

pensamos em nós.

Sozinhos com tua imagem,

cada qual se conhece por este sentimento

de cansaço, que é doce – como um brilho de lágrimas

que recobre a memória destes dias,

esta estranha semana.

E o mal que nos fazemos,

como o que a ti fizemos, o inevitavelmente

amargo desta vida em que sempre, sempre,

somos piores que nós mesmos,

talvez ressuscite um velho sonho

conhecido e olvidado.

O sonho de sermos bons e felizes.

Porque sonho e lembrança têm força

para obrigar a vida,

ainda que não sejam mais que um limite impossível.

Se este mar de projetos

e tentativas naufragadas,

este torpe tapete a cada instante

cosido e descosido,

esta guerra perdida,

nossa vida,

dá de si alguma vez um sentimento digno,

um ato verdadeiro,

nele tu estarás para sempre associado

a meu amigo e a mim. Não te teremos perdido.

Casal em Coney Island — Charles Simic

Era cedo numa manhã de domingo,
Então vestimos nossos melhores trapos

E saímos a passear pelo calçadão de madeira

Até chegarmos a um lugar

Com pequenas torres e bandeiras tremulantes.

Me fez pensar num bolo de casamento

Na vitrine de uma luxuosa confeitaria.
Senti calor, e então tirei a jaqueta

Passei meu braço por tua cintura

E te trouxe para mais perto de mim

Enquanto deitavas a cabeça em meu ombro.

Qualquer um veria que tínhamos feito amor

Na noite passada e ainda cambaleávamos sobre nossos pés

Olhando as bandeirolas brancas e vermelhas

Agitadas pelo vento marinho.

As atrações e os estandes de tiro

Com seus patos alinhados a marchar

Ainda estavam fechados e cadeados.

Ninguém por perto para nos levar nossa primeira moeda.

 

Uma folha — Bronislaw Maj

Uma folha, uma das últimas, solta-se de um galho de bordo:

gira no ar transparente de outubro, cai

sobre uma pilha de outras, para, desaparece. Ninguém

admirou seu arrebatador combate contra o vento,

acompanhou seu voo, ninguém haverá de distingui-la

agora que jaz entre as outras folhas, ninguém viu

o que eu vi. Eu

sou o único.

Coisas próximas — Leonard Nathan

As amoras silvestres que apanhei naquela manhã
em que o mundo parecia estar junto ao limiar aceso

de alguma forma especialmente adorável

ainda estavam amargas. Você sorriu mesmo assim.

Era o seu segundo-melhor sorriso,

aquele reservado para lidar

com as coisas tais quais elas são, e lidamos.
E à medida que o dia amadurecia lento,

tudo o que víamos ou tocávamos

tocava-nos feito uma consolação

da doçura que nunca tivemos – e isso foi bom.

Naquela noite as estrelas estavam simplesmente

além do alcance e nós as ignoramos

por este mundo, escuro como ele estava.

A eleição — Leonard Nathan

Como votaram as pedrasdesta vez?
Votaram por solidez

e poucas palavras
assim como as árvores votaram

por um lento crescimento

vertical e pelo descarte

dos dependentes mortos.
E os homens?
Eles mais uma vez

votaram contra si mesmos

e pelo fogo

que pensam

poder controlar,

fogo

que votou por enegrecidos tocos

e nada mais de eleições.

Perspectiva — Wislawa Szymborska

Os dois passaram feito estranhos,

sem gestos ou palavras,

ela em direção à loja,

ele em direção ao carro.
Estavam em pânico

ou distraídos,

ou haviam esquecido

que por algum tempo

tinham se amado para sempre.
Não há garantia, no entanto,

de que fossem eles.

Talvez à distância

mas não de perto.
Eu os vejo de uma janela,

mas quem observa de cima

facilmente se engana.
Ela desapareceu atrás da vidraça,

ele sentou em frente ao volante

e deu a partida.

Nada aconteceu, é isto,

se uma vez chegou a acontecer.
Mas segura do que vi

mesmo que por um momento,

tento neste poema fortuito

convencê-los, ó leitores,

de que foi triste.