Uma folha — Bronislaw Maj

Uma folha, uma das últimas, solta-se de um galho de bordo:

gira no ar transparente de outubro, cai

sobre uma pilha de outras, para, desaparece. Ninguém

admirou seu arrebatador combate contra o vento,

acompanhou seu voo, ninguém haverá de distingui-la

agora que jaz entre as outras folhas, ninguém viu

o que eu vi. Eu

sou o único.

Coisas próximas — Leonard Nathan

As amoras silvestres que apanhei naquela manhã
em que o mundo parecia estar junto ao limiar aceso

de alguma forma especialmente adorável

ainda estavam amargas. Você sorriu mesmo assim.

Era o seu segundo-melhor sorriso,

aquele reservado para lidar

com as coisas tais quais elas são, e lidamos.
E à medida que o dia amadurecia lento,

tudo o que víamos ou tocávamos

tocava-nos feito uma consolação

da doçura que nunca tivemos – e isso foi bom.

Naquela noite as estrelas estavam simplesmente

além do alcance e nós as ignoramos

por este mundo, escuro como ele estava.

A eleição — Leonard Nathan

Como votaram as pedrasdesta vez?
Votaram por solidez

e poucas palavras
assim como as árvores votaram

por um lento crescimento

vertical e pelo descarte

dos dependentes mortos.
E os homens?
Eles mais uma vez

votaram contra si mesmos

e pelo fogo

que pensam

poder controlar,

fogo

que votou por enegrecidos tocos

e nada mais de eleições.

Perspectiva — Wislawa Szymborska

Os dois passaram feito estranhos,

sem gestos ou palavras,

ela em direção à loja,

ele em direção ao carro.
Estavam em pânico

ou distraídos,

ou haviam esquecido

que por algum tempo

tinham se amado para sempre.
Não há garantia, no entanto,

de que fossem eles.

Talvez à distância

mas não de perto.
Eu os vejo de uma janela,

mas quem observa de cima

facilmente se engana.
Ela desapareceu atrás da vidraça,

ele sentou em frente ao volante

e deu a partida.

Nada aconteceu, é isto,

se uma vez chegou a acontecer.
Mas segura do que vi

mesmo que por um momento,

tento neste poema fortuito

convencê-los, ó leitores,

de que foi triste.

Calderón de la Barca – À noite

Esses traços de luz, essas centelhas
que cobram com âmagos superiores

alimentos do sol em resplandores

aquilo vivem que se condói delas.
Flores noturnas: ainda que tão belas,

efêmeras padecem seus ardores,

pois se um dia é o século das flores,

uma noite é a idade das estrelas.
Dessa, pois, primavera fugitiva,

já nosso mal, já nosso bem se infere;

registro é nosso, ou morra o sol ou viva.
Que duração haverá que o homem espere,

ou que mudança haverá que não receba

de astro que cada noite nasce e morre?

Lembrança – Faiz Ahmed Faiz

No deserto da solidão, minha adorada, tremem
As sombras de tua voz, a miragem de teus lábios;

Entre a relva e as cinzas da ausência florescem

Neste deserto, as rosas e os jasmins de nosso amor.
Graças a tua proximidade, o ardor de tua respiração parece se erguer

Queimando sem chama em seu perfume, delicadamente

Em algum lugar ao longe, para além do horizonte, brilha

O suave orvalho caindo gota a gota de teus olhos.
Neste instante a memória de ti golpeia meu coração, amorosamente

Mão sutil a acariciar a face com delicadeza,

Parece, ainda que seja a manhã do exílio,

Que o dia da partida termina, e começa a noite da felicidade.