Noites do mês de junho — Jaime Gil de Biedma

Algumas vezes me lembro

de certas noites de junho daquele ano,

quase borradas, de minha adolescência

(era em mil novecentos me parece

e quarenta e nove)

porque nesse mês

sentia sempre uma inquietude, uma angústia pequena

o mesmo calor que começava,

nada além

da especial sonoridade do ar

e uma disposição vagamente afetiva.

Eram as noites incuráveis

e a calentura.

As altas horas de estudante solitário

e o livro intempestivo

junto à sacada aberta de par em par (a rua

recém regada desaparecia

lá embaixo, entre as folhagens iluminadas)

sem uma alma que levar à boca.

Quantas vezes me lembro

de vós, longínquas

noites do mês de junho, quantas vezes

me saltaram as lágrimas, as lágrimas

por não ser mais que um homem, quanto quis

morrer

ou sonhei em me vender ao diabo,

que nunca me escutou.

Mas também

a vida nos sujeita porque precisamente

não é como a esperávamos.

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Olá de novo — Leonard Nathan

Em toda saudação um último adeus é dito.

É por isso que minha mão se encaixa com tal conforto na tua

e meus olhos desde o primeiríssimo olhar

jamais deixaram de perguntar aos teus: quando,

como, e por que grandes razões?

Toda partida é um ensaio para a derradeira.

É por isso que tu me chamas da escada uma segunda vez

para me dizer que desta vez só estás praticando,

que logo estarás de volta com cigarros

e um jornal cheio de desastres frescos.

Toda vida é um exemplo do que se pode esperar.

É por isso que a cada manhã o espelho é estudado

com total e muda devoção, como uma página das escrituras.

E é por isso que cada novo rosto é um comentário

em nosso próprio velho testamento.

Numa despedida — Jaime Gil de Biedma

Tardam as cartas e não bastam

para dizer o que se quer.

Depois passam os anos, e a vida

(demasiado confusa para explicar em cartas)

nos fará mais perdidos.

Uns nos outros, iguais às sombras

ao fundo de um corredor desvanecendo-nos

viveremos da luz involuntária

mas só por um instante, porque já a lembrança

será como uma mancheia de conchas recolhidas

tão bonita em si mesma que não devolve nunca

as palmeiras felizes e o mar tremulante.

Tudo ocorreu há minutos: dois amigos

vimos teu rosto terrivelmente sério

querendo sorrir.

Desapareceste.

E estamos os dois sós e em silêncio,

em meio a este dia de domingo,

belíssimo de maio, com matrimônios jovens

e crianças animadas que gritavam

ao decolar de teu avião.

Agora as montanhas parecem mais próximas.

E, pela primeira vez,

pensamos em nós.

Sozinhos com tua imagem,

cada qual se conhece por este sentimento

de cansaço, que é doce – como um brilho de lágrimas

que recobre a memória destes dias,

esta estranha semana.

E o mal que nos fazemos,

como o que a ti fizemos, o inevitavelmente

amargo desta vida em que sempre, sempre,

somos piores que nós mesmos,

talvez ressuscite um velho sonho

conhecido e olvidado.

O sonho de sermos bons e felizes.

Porque sonho e lembrança têm força

para obrigar a vida,

ainda que não sejam mais que um limite impossível.

Se este mar de projetos

e tentativas naufragadas,

este torpe tapete a cada instante

cosido e descosido,

esta guerra perdida,

nossa vida,

dá de si alguma vez um sentimento digno,

um ato verdadeiro,

nele tu estarás para sempre associado

a meu amigo e a mim. Não te teremos perdido.

Casal em Coney Island — Charles Simic

Era cedo numa manhã de domingo,
Então vestimos nossos melhores trapos

E saímos a passear pelo calçadão de madeira

Até chegarmos a um lugar

Com pequenas torres e bandeiras tremulantes.

Me fez pensar num bolo de casamento

Na vitrine de uma luxuosa confeitaria.
Senti calor, e então tirei a jaqueta

Passei meu braço por tua cintura

E te trouxe para mais perto de mim

Enquanto deitavas a cabeça em meu ombro.

Qualquer um veria que tínhamos feito amor

Na noite passada e ainda cambaleávamos sobre nossos pés

Olhando as bandeirolas brancas e vermelhas

Agitadas pelo vento marinho.

As atrações e os estandes de tiro

Com seus patos alinhados a marchar

Ainda estavam fechados e cadeados.

Ninguém por perto para nos levar nossa primeira moeda.

 

Uma folha — Bronislaw Maj

Uma folha, uma das últimas, solta-se de um galho de bordo:

gira no ar transparente de outubro, cai

sobre uma pilha de outras, para, desaparece. Ninguém

admirou seu arrebatador combate contra o vento,

acompanhou seu voo, ninguém haverá de distingui-la

agora que jaz entre as outras folhas, ninguém viu

o que eu vi. Eu

sou o único.

Coisas próximas — Leonard Nathan

As amoras silvestres que apanhei naquela manhã
em que o mundo parecia estar junto ao limiar aceso

de alguma forma especialmente adorável

ainda estavam amargas. Você sorriu mesmo assim.

Era o seu segundo-melhor sorriso,

aquele reservado para lidar

com as coisas tais quais elas são, e lidamos.
E à medida que o dia amadurecia lento,

tudo o que víamos ou tocávamos

tocava-nos feito uma consolação

da doçura que nunca tivemos – e isso foi bom.

Naquela noite as estrelas estavam simplesmente

além do alcance e nós as ignoramos

por este mundo, escuro como ele estava.