Consolação – Wislawa Szymborska

Darwin.
Dizem que ele lia romances para relaxar,
Mas apenas de alguns tipos:
nada que acabasse mal.
Se alguma coisa do gênero aparecesse,
irritado, jogava o livro ao fogo.

Verdade ou não,
Estou disposta a acreditar.

Vasculhando em sua mente tantos tempos e lugares,
já tivera o suficiente de espécies ameaçadas,
o triunfo do forte sobre o mais fraco,
a luta infinita pela sobrevivência,
todos condenados cedo ou tarde.
Ele conquistara o direito aos finais felizes,
ao menos na ficção
com suas diminuições.

Assim o indispensável
otimismo,
os amantes reunidos, as famílias reconciliadas,
as dúvidas dissipadas, a fidelidade recompensada,
as fortunas remidas, os tesouros descobertos,
os vizinhos bisbilhoteiros indo cuidar de suas vidas,
os bons nomes recuperados, a ganância afugentada,
velhas senhoras casadas com parceiros dignos,
encrenqueiros banidos para outros hemisférios,
forjadores de documentos lançados pela escada,
sedutores apressados em direção ao altar,
órfãos abrigados, viúvas reconfortadas,
o orgulho amainado, as feridas cicatrizadas,
os filhos pródigos de volta ao lar,
copos de mágoa lançados ao oceano,
lenços empapados por lágrimas de reconciliação,
alegria geral e uma grande festa,
e o cachorro Fido,
extraviado no primeiro capítulo,
ressurge a latir faceiro
no momento final.

As janelas – Kaváfis

Nestes quartos escuros onde passo
dias macilentos, ando de lá para cá
procurando pelas janelas. – Abrir
uma delas teria sido um grande consolo. -
Mas não estão em nenhum lugar, ou
ao menos não consigo
encontrá-las. E talvez seja melhor
assim.
Talvez sua luz fosse uma nova
tirania.
Quem sabe o que haveriam de revelar?

Seu começo – Kaváfis

Seu ilícito prazer carnal está
consumado. Os dois se erguem do colchão,
e rapidamente se vestem sem trocar palavra.
Saem separados da casa, em segredo;
à medida que avançam pela rua,
constrangidos,
parecem suspeitar que alguma coisa
delata
o tipo de cama em que estiveram ainda há pouco.
Mas eis aqui como a vida do artista se faz lucrativa.
Amanhã, depois de amanhã, dentro de alguns anos,
versos poderosos
que aqui tiveram seu começo haverão de ser escritos.

Desejos – Kaváfis

Como os belos corpos dos mortos
que não envelheceram,
que estão confinados, em lágrimas, no reluzente
mausoléu,
com rosas em seus cabelos e jasmins em suas
pernas -
assim se parecem os desejos que passaram
sem encontrar satisfação; sem jamais terem aproveitado
uma noite de sexo ou o despertar luminoso da manhã.

(com a colaboração de A. B. )

Um poema de amor – Nicolás Guillén

Não sei. Ignoro-o.
Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Quem sabe um século? Talvez.
Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês. Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.
Ao fim como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de pronto
que ia voltar a vê-lá, que a teria
perto, tangível, real, como nos sonhos.
Que troar surdo
Rodando-me nas veias,
estalando lá em cima
sob meu sangue, em uma
noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
como ninguém compreenderia
que essa é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
um apertão conspiratório, uma olhada,
um palpitar do coração
gritando, ululando com silenciosa voz.
Depois
(já o sabeis desde os quinze anos)
esse ruflar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penitenciais,
entre testemunhas inimigas,
ainda
um amor de “o amo”
de “você”, de “bem gostaria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, você deve pensar melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo na primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão dos amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
e já sem olhos seguir a vê-la ao longe,
lá longe, e ainda segui-lá
ainda mais longe,
feita de noite,
de mordida, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.

Sobre Du Fu – Li Po

Encontrei Du Fu no alto de uma montanha
em agosto quando o sol estava quente.
Sob a sombra de seu grande chapéu de palha
seu rosto estava triste…
Nos anos desde que estivemos juntos,
ele se pôs combalido, exausto.
Pobre do bom e velho Du Fu, pensei então,
devia estar, mais uma vez, agoniando-se com a poesia.

Uma folia na montanha – Li Po

Para lavar e limpar nossas almas de suas envelhecidas tristezas,
Secamos uma centena de jarras de vinho.
Que noite esplêndida aquela…
Sob a luz clara da lua relutávamos em ir para a cama,
Mas por fim a bebedeira nos venceu,
E nos deitamos sobre a montanha vazia,
A terra por travesseiro, e a imensidão do céu por cobertor.

Dias de 1903 – Kaváfis

Jamais voltei a encontrá-las – as coisas tão rapidamente perdidas…
os olhos poéticos, o rosto
pálido… na penumbra da rua…

Jamais voltei a encontrá-las – as coisas adquiridas por puro acaso,
das quais com tal leveza abri mão;
e que mais tarde agonicamente quis.
Os olhos poéticos, o rosto pálido,
aqueles lábios, que nunca mais voltei a encontrar.

Volta – Kaváfis

Volta outra vez e me arrebata,
amada sensação retorna e me arrebata –
quando desperta a memória do corpo,
e um antigo desejo atravessa o sangue;
quando os lábios e a pele relembram,
quando as mãos sentem que ainda te tocam.

Volta outra vez e me arrebata durante a noite
quando os lábios e a pele relembram…

A casa estava em silêncio e o mundo estava calmo – Wallace Stevens

A casa estava em silêncio e o mundo estava calmo.
O leitor tornou-se o livro; e a noite de verão

Era como a existência consciente do livro.
A casa estava em silêncio e o mundo estava calmo.

As palavras eram ditas como se não houvesse livro,
Exceto pelo leitor que se debruçava sobre a página,

Queria se debruçar, queria acima de tudo ser
O erudito para quem seu livro é a verdade, para quem

A noite de verão existe perfeita em pensamento.
A casa estava em silêncio porque assim tinha de estar.

O silêncio era parte do sentido, parte da mente:
O acesso à perfeição para a página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo,
No qual não há nenhum outro significado, por si só

É calma, por si só é noite e verão, por si só
É o leitor ali debruçado e lendo até tarde.